sexta-feira, 30 de abril de 2021

TEMPO DE REFLEXÃO


Nunca me imaginei numa posição destas e quando soube que estava grávida desejei imenso ter um rapaz! Já tinha uma menina e queria um casal!

«Ouro sobre azul»… Na ecografia das 20 semanas veio a confirmação! Era uma menina! (subconsciente a trabalhar!) Era um menino!

Sonhei e fiz-lhe uma vida na minha cabeça… como menino! Mas os sonhos eram meus e a vida era delx!

Muitas vezes me pergunto «Porquê a mim?! Porquê à minha cria? É culpa minha?» e apesar do tempo passar e ser uma criança e se ter revelado ainda muito nova, as perguntas perseguem-me… e a seguir a estas vem outra «fazemos bem em permitir?».

É difícil perceber que não há nada de errado com ela… nasceu menina em corpo de menino! Mas depois acaba por me dizer que também era feliz como menino, que o importante é estarmos todos juntos! E as dúvidas e a culpa voltam, bem como a revolta!

Menino ou menina, Manel ou Maria, continua a ser meu/minha filho/a! Continua a ser meu/minha! E os desejos que tenho para elx são os mesmos. Ser feliz, ter educação e ser boa pessoa. O meu amor continua incondicional e vou amá-lx para sempre! E vou lutar por ela, com todas as minhas forças! Vou lutar por todos os seus direitos como criança!

Quando estava grávida e ainda não sabia o sexo, apesar de preferir um menino, o meu desejo maior era ser perfeitx! E seria feliz se fosse uma menina. Às vezes penso nisso e digo-me «se te era indiferente, agora que tens uma menina, ama-a e respeita-a, como disseste a ti própria que o farias, quando elx ainda estava dentro de ti!»

E quando outros pais ou familiares me dão os parabéns por reagirmos como reagimos ou nos dizem «não podia ter melhores pais» sinto que não estou à altura porque, por mais que a minha cabeça diga que é normal, fui educada de uma maneira tradicional e a Maria sai fora da caixa, não se encaixa no lugar que a vida escolheu para ela!

Como me podem felicitar sem saberem se faço bem? Como podem os de fora julgar quando me vêem com uma Maria que nasceu Manel pela mão? Não sabem que por dentro ainda sinto vergonha, que acaba vencida pelo amor e pelo orgulho na minha filha, mas que às vezes vem ao de cima?!

Sei que dentro da sua cabecinha e coração de criança a identidade do género nunca foi definida nem muito nítida… mas os outros? E se lhe fazem mal? E se não conseguir um emprego?

Sei que a vou amar para sempre e vou lutar por ela, com todas as minhas forças! Vou lutar por todos os seus direitos como pessoa, como ser humano ou como ainda uma criança!

Irei criar a minha filha com amor, com apoio incondicional, como uma mãe cria uma cria, indiferentemente de ser menino ou menina, vou criar com amor, com sabedoria de mãe e vou ensiná-la a ser uma pessoa boa, linda, forte, com valores, com respeito e acima de tudo, vou lutar para criar uma mulher feliz.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Agora que sou menina parece que sou outra pessoa... sinto que voltei a nascer

 

Um dia, ainda fechados em casa, a Maria recebeu uma carta da professora da escola! Toda ela pulava alegria quando lhe disse… mas essa alegria foi rapidamente substituída por um grande sentimento de revolta e tristeza. A carta vinha endereçada ao Manel! Até me disse - mas a carta não é para mim. Repara no nome que vem escrito!

Também fiquei triste… como é que pequeninas coisas, como no envelope vir o seu nome oficial, podiam deitar a baixo sonhos e alegria?!

E a professora já a chamava de Maria! A professora apoiava-a, mas… utilizou o deadname!

Porque não a registámos como Manuel Maria?

Por estes dias, num dia em que a fui deitar, falávamos de medos e contou-me do medo terrível que tinha da nossa família se separar. E contou-me como era feliz na nossa família! Senti-me muito orgulhosa e ao mesmo tempo perguntei-lhe se não era feliz como Manel, como menino. Respondeu-me que sim, que era feliz como menino, mas que era muito mais feliz como menina… e como se fosse uma criança adulta disse-me «Agora que sou menina parece que sou outra pessoa... sinto que voltei a nascer!».



Senti-me muito orgulhosa da minha filha, por tão sábia resposta!



terça-feira, 27 de abril de 2021

Maria, a vaidosa!

Chegámos ao dia 15 de março em que reaabriram as escolas para o primeiro ciclo e a Maria voltou para a escola, para a professora e para os amigos.

Mas como a Maria é vaidosa, estava triste porque queria vestir as suas roupas bonitas em vez da roupa da escola.

No fim de semana vingava-se e vestia-se de uma forma excessivamente arranjada.

Às vezes mudava várias vezes de roupa e desfilava-se pela casa, pedindo que lhe tirasse fotos.


A foto seguinte foi bem conseguida, saída duma «sessão fotográfica» num dos nossos passeios higiénicos, em que a Maria estava arranjada como se fosse para um casamento, com carteira e tudo! (Tinha apenas trocado as sabrinas por sapatilhas, por insistência minha, por serem mais confortáveis para caminhar!)


Já não escrevo aqui há muito tempo. Não o faço, por não sentir necessidade. A Maria é uma menina como todas as outras meninas de 12 anos e m...