sexta-feira, 9 de abril de 2021

Por volta do início do ano escolar o Manel passou a ser a Maria

 A transição já tinha começado sem quase nos termos dado conta! 

Por dentro senti alguma revolta. Por um lado queria que a minha filha fosse feliz, sem precnceitos, num mundo que ela idealizara, da forma como se sentia ser, mas por outro, não queria perder o meu filho! Sempre sonhara ter um casal e sonho estava a desfazer-se!

Às vezes também sentia uma certa vergonha pelos olhares de terceiros… Sentia uma culpa invadir-me e cortar-me, como facas afiadas «ele é assim porque a mãe sempre quis ter meninas!» «Ele é assim, por culpa da mãe!»

Também várias vezes me questionei acerca da culpa e outras tantas tentei arranjar explicações para o género não coincidir com o sexo atribuído à nascença? Porquê? Porque tinha de acontecer connosco?

Nunca encontrei resposta… mas cada vez sabia melhor. As pessoas trans existem… e a minha criança pequena não é um menino, é uma menina com coração de menina, mas com pénis!

Comecei a pensar na Maria como uma pessoa, uma criança e não como uma menina ou menino. Que importa o género e o sexo?! Disse-me vezes sem conta «vais amá-lx independetemente do género que escolher! É a tua criança! Não pudeste escolher o sexo quando engravidaste e queres escolher agora?! O que importa é ser feliz, ser boa pessoa, ser bem educada e ser bem formada… O que muda?! Não gostas dela à mesma?!» mas os meus pensamentos voavam e voltavam sempre com as mesmas perguntas «Porquê a mim? Porque tinha de acontecer a nós?»

E quando numa consulta de pedopsiquiatria, no verão, por volta desta altura, a Maria disse que estava preparada para ser a Maria e deixar de viver no limbo, a minha resposta foi única «Elx não está preparada!» e depois acrescentei, entre dentes, enquanto um filme de uma vida masculina a desmoronar-se me passava à frente dos olhos «nem elx, nem eu!»

Apesar de não ter dito nada, a Maria sentiu que eu ficava triste com a transição… uma criança de quase 7 anos não quis dececionar a mãe e preferiu continuar presa num corpo que não era o dela a dececionar-me! Afinal quem estava a ser imatura e infantil!

Quando nos senti preparadas, disse-lhe que podia ser uma menina ou um menino, que eu continuaria a amá-la independentemente da sua decisão, e foi então que por volta do início do ano escolar, com quase 7 anos, que o Manel passou a ser a Maria.

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